sábado, 31 de dezembro de 2011

Chuva no Amazonas - Frases de água



Frases que se movimentam e se definem ao fazê-lo, como se perpassando afluentes desenhassem curvas influentes - ao se influenciarem incessantemente – construindo mapas de regiões quentes e exuberantes... Se duas, três ou cinco, as escolhas se escolhiam por acerto, beleza e prazer em prosseguir o que fora iniciado muitos (com)passos antes, quando já a consciência da unidade era absoluta, apesar das características particulares de cada nota, sua altura, duração e significado em cada momento.

Chuva no Amazonas (player acima) é uma canção de compassos que se alteram com frequência muito menor do que mudamos de ideia e organizados como um discurso literário, que não tem tempo definido com critérios musicais, mas que tanto caminha, quanto respira, tal como falamos ou contamos uma história para alguém. Ela surgiu como alma musical do poema (abaixo) de mesmo nome que escrevi  e que é recitado ao fim do arranjo pela cantora Sandra Ximenez, a única e necessária presença feminina no CD Cidades Imaginárias.
A primeira exposição é feita por Antônio Barker, super pianista convidado e amigo querido que tem o hábito de tocar trilhas sonoras de sonhos. No baixo, Robertinho Carvalho, grande músico, arranjador e o parceiro que todo baterista quer ter: seguro, musical, ouvido atentos e sempre feliz ao tocar com você. A flauta é precisa, inspirada e muito bem tocada pelo amigo, compositor e arranjador, Celso Marques.


...Chove no rio Amazonas...
A canoa flutua n’água
deslizando’índio e a
preguiça das nuvens
descansa nu’spelho
doce das águas
Envelhecid’a manhã
move-se lentamente
como uma baleia
gigantesca...
Enquanto o remo deixa
seus rastros na bruma
gotas de musgo
escorrem pelo peito
nu’esverdeado
I’nda longe
o porto de Manaus
Além de peixe
o som do amazonas
como um mantra equatorial...


Chuva e rio s’encontram
e como nunca separados
cada gota
traz o amazonas inteiro
de
volta
pra
casa... 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Música é meu ofício - Pessoas, minha paixão maior

Trabalhar com arte é, de fato, algo muito especial e o artista, eventualmente, tem a impressão de fazer contato direto com a 'fonte de onde tudo vem'. Parece que as pessoas em suas diversas ocupações nem mais, nem menos importantes, podem se entediar mais facilmente e se desencantar de seus ofícios. Mas a música é um presente para todos e, por vezes, são os músicos que se cansam de trabalhar em situações que não lhes agradam, porque há contas a serem pagas, filhos a serem cuidados, novos instrumentos comprados, manutenção a ser feita...

Trem NY- Matawan, dez.
Música - com toda sua magia - é meu ofício e através dele procuro desenvolver meu espírito que vai seguir viagem quando este corpo se cansar, como tudo que é físico e tão sólido quanto um pensamento.
Antes dos meus sonhos musicais e dos meus planos profissionais, estão as pessoas que amo e que me são muito caras. Aqui uma coleção de fotos de algumas delas, de momentos de trabalho e de viagens que fiz neste ano de 2011. Há pessoas queridas que não estão nas fotos como  Carlos Ezequiel, Christiano Rocha, Paulo e Paola Tiné, Sandra Ribeiro, Vera Cury, Bob Wyatt, Ricardo H., Suzana Fleury, Sidney Molina, Luis Otavio, Claudio Tegg, Carlinhos Antunes, Renato Consorte, Jeff Kunkel, David Damsey, David Richards, a turma do Sergio Rossoni Grupo, do grupo Terra Brasil e outras mais que eu gostaria de colocar nesse mural... Bem, eu coloco no próximo.

Big Band da Fundação, Teatro da Vila, junho

Meu irmão tentando me convencer de algo... sempre!
1ª geração de sobrinhos, Daniel e Renata


Lauro Lellis, eu, Maurício Leite e Leandro Lui

Caribe ao fundo, montando set para show, abril


Sobrinhas, janeiro, São Sebastião
Felix, meu irmão alemão. 

Vive em NY... Dá pra imaginar as saudades?
Família, agosto, SP
Parece comigo e mesmo assim é linda... Inexplicável!!! NY, Dezembro
                                                                                                                                                                           Grande abraço, um ano novo muito bom para você e todos ama, Sergio
                     

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Frevo Pé Trocado - 7/8 (4+3)



Foto da gravação do CD
O frevo é um gênero musical           natural de Pernambuco e nasceu do desafio musical entre bandas marciais no princípio do século XX. Com o tempo surgiu um estilo de dança que faz parecer que abaixo dos pés das pessoas exista uma superfície com água fervendo. A palavra frevo vem de ferver ("frever") sob os pés ou a impressão que dá o desfile visto de longe, no calor do nordeste brasileiro.

Este estilo pernambucano de carnaval é um tipo de marchinha bastante acelerada em geral sem letra - ao contrário de outras músicas carnavalescas - sendo tocados por uma banda de sopros, metais e saxofones em geral, e uma formação de percussão com caixa ao centro, bumbo (surdo em português do Brasil) e prato a dois, como nas bandas militares, nas fanfarras e nas marching bands americanas. A instrumentação é a base de uma bateria, caixa, bumbo e chimbal (snare, bass drum and Hi-hat) e o desafio para o instrumentista é técnico, sob o ponto de vista da velocidade... 

"Frevo Pé Trocado" (player acima) é uma composição que fiz e que está em meu CD "Cidades Imaginárias". O frevo é um gênero binário, escrito e dançado em 2/4 e essa composição é em 7/8, o que deu origem ao nome 'pé trocado', imaginando a dança sobre o tempo num compasso e no seguinte no contratempo. Experimente ouvir o ritmo em 7/8 e em 7/4 quando o 'pé trocado' fica evidente e divertido. Há um conceito composicional baseado no contraste entre o caráter ‘tonal’ de uma melodia mais tradicional de frevo e a seção modal de solo tenor ‘free’ do super Vitor Alcântara.

Na gravação temos Robertinho Carvalho, baixo, Moisés Alves, piano, Celso Marques, flauta e o convidado especial, Mario Afonso III, na flauta pícollo.
Dediquei essa música ao meu grande amigo, super baterista, Maurício Leite.
Essa faixa pode ser encontrada no Itunes ou similar. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Berimbau jazz - Marcelo "Preto" Gomes



Marcelo Gomes é guitarrista, compositor, professor e grande parte de suas composições estão nos cinco CDs do grupo de jazz brasileiro Terra Brasil, sobre o qual tenho comentado e mostrado algumas faixas para você que acompanha este blog. Samba, baião maracatu e ijexá são ritmos presentes em suas músicas, além de um veio mais latino: sul-americano e caribenho. http://www.myspace.com/marcelogomesguitar

O berimbau sempre exerceu um fascínio especial sobre meu irmão, Marcelo. Sua composição intitulada "Chino" - disponível no player acima - do CD "Questão de Tempo" é baseada num ciclo modal, onde o baixo toca ostinatos inspirados em toques de berimbau e na gravação eu toquei dois berimbaus afinados: o gunga, berimbau grave de base em (B, si) e o viola, berimbau agudo que gravei em overdub em (E, mi). Ambas as notas são afins com o ciclo harmônico da música e cumprem uma função "pedal" sobre a qual toda a composição acontece... Ele diz que é uma capoeira chinesa, mas até hoje (don’t tell him!), honestamente, não sei bem por que. A música é muito bonita e propõe um conceito que associa a tradição afro-brasileira com o jazz brasileiro contemporâneo.

Além dos dois berimbaus, usei diversos efeitos como o gongo submerso criado por John Cage, compositor que conheci quando estive envolvido com percussão do século XX, durante meu bacharelado em percussão erudita, na UNESP. Há também seções com de pratos 'crashs' de tamanhos diversos tocados com baquetas macias. Os solos são todos de cordas, guitarra, violão e berimbau sobre o tema final (head out), que tem função híbrida de re-exposição e background para o solo do berimbau viola que é uma idéia muito criativa do arranjo.

Os Irmãos Gomes em Vitória, ES, 70s
Marcelo tem um CD solo - lançado pela CPC Umes - "Preto", um trabalho super inspirado, muito bem tocado e que pode ser encontrado em boas lojas por todo Brasil. Ele sempre foi uma fonte de aprendizado musical para mim e é um artista que busca incessantemente os conceitos por trás das estruturas, instigado pelo folclore, pelo jazz e pela música brasileira. É uma sorte e um grande prazer que ele seja meu melhor amigo.

sábado, 22 de outubro de 2011

IASJ - Workshop Informal

O 21º IASJ - International Association of Shools of Jazz Meeting - que tem Dave Liebman como diretor artístico, foi realizado aqui, em São Paulo, onde vivo. Pela 1ª vez o evento foi realizado na América do Sul e trouxe professores da Berklee e estudantes de diversos países. As atividades foram realizadas no Conservatório Souza Lima e o baterista, professor no encontro e meu grande amigo, Carlos Ezequiel me ligou convidando para ir ao encontro final da área de bateria.
Fui até lá e foi ótimo encontrar amigos queridos como Bob Wyatt e Lupa Santiago e conhecer músicos como John Ramsay, chefe do departamento de percussão da Berklee, e autor dos vídeos abaixo.  Meu livro estava circulando pelo encontro, uma vez que o conservatório, entre muitas outras escolas no Brasil, universidades americanas e européias (pela Ed. Advance Music), o adotou para o ensino de ritmos brasileiros. Em certo ponto do encontro fui apresentado ao presentes pelo próprio Ramsay e gentilmente convidado a falar sobre meu trabalho.

Compartilho com você um pouco deste encontro descontraído e agradável, onde ouvi diversas considerações interessantes sobre o equilíbrio entre o desenvolvimento técnico e musical na formação de um músico.

No 1º vídeo abaixo, demonstrei a técnica conhecida como "frigideira", clássica maneira brasileira de tocar samba e ritmos brasileiros em geral, usando o movimento de rotação do braço, sem uso dos dedos, nem pulso (no sentido up and down) e iniciando para direita e retornando para esquerda.

No 2º vídeo falamos, eu e Carlos, sobre maracatu e demonstrei os baques de arrasto e de marcação, variações de caixa, bumbos e o gonguê - sua conexão com a linha do tarol - que também toco com o pé esquerdo.




segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Maracatu Jazz: Onde estão os temas? Where are the melodies?



O maracatu segue sendo uma manifestação muito mais folclórica do que um gênero popular e as canções, em geral, são simples, com dois versos cantados em forma AABB, a 1ª vez cantada pelo mestre e a 2ª respondida pelo coro, ou ainda com trechos quase 'recitados'. Por essa razão há poucos temas conhecidos no repertório popular brasileiro.

“Maracatu”, de Egberto Gismonti é uma das maiores referências de um tema em ritmo de maracatu. Zé Eduardo Nazário é o baterista da gravação no álbum "Nó Caipira", 1978, e Nenê quem gravou "Sanfona", 1981, reunido em "Sanfona, Egberto Gismonti e Dança das Cabeças", 1986, pela ECM. Cada um toca de maneira muito particular e ambas gravações tornaram-se referências de maracatu na bateria. Sou um profundo admirador destes grandes bateristas e amigos e sugiro que você procure e ouça essas gravações inesquecíveis.

No player acima você pode ouvir o tema “Questão de Tempo” de CD do mesmo nome do grupo Terra Brasil. Ao lado, Marcelo, Antônio,  Zeli, autor do tema, Vitor e eu. Ricardo Garcia também faz percussão nessa faixa.

Na bateria, você vai ouvir uma das maneiras que toco maracatu na bateria e também conhecer a 1ª gravação onde usei cowbell no pé esquerdo tocando a linha do gonguê, uma tipo de cowbell do maracatu. Além da bateria, fiz overdub de mais uma caixa e um tarol (caixa mais aguda) tocando algumas de suas frases clássicas da tradição do maracatu, de certo ponto da improvisação até o retorno do tema A.

Harmonia modal, improvisações, texturas, timbres modernos e as melodias das partes A e B não tem nenhum compromisso com o aspecto melódico do maracatu tradicional. Maracatu jazz é a melhor definição que tenho para este tema, que me lembra o espírito dos ritmos brasileiros numa cidade como NY.

sábado, 1 de outubro de 2011

Feiras são grandes encontros – Brasil Expomusic 2011



Feira é um evento milenar na história do homem. De alimentos, artesanato, carros, música... Barulho, stands (ou barracas), comércio, apresentação de novos produtos, “trocas”, vendas, compras e novas relações comerciais se estabelecem assim como acontecem encontros com amigos e colegas de trabalho.

A Expomusic brasileira 2011 foi bem movimentada e com todas as características de uma feira acrescida de performances musicais que, em geral, tendem mais a exibições técnicas do que musicais, mas ainda assim divertidas. Eu mesmo toquei no stand da RMV - minha marca de bateria e peles - os play-alongs de meu livro, que estão espalhados pelo YouTube sendo tocados por muitos bateristas, e também toquei solos livres baseados em temas, grooves, ou em alguma “idéia musical”.

Foi muito bom e gratificante receber o carinho de muitos estudantes, professores e músicos em geral que conhecem e utilizam meu livro, ou conhecem meus CDs e gravações. Fiquei muito feliz ao ver quanta gente tem se beneficiado com meu trabalho didático e outros que acompanham minha carreira musical.

No player acima você pode ouvir Bluesamba, uma composição minha gravada no 5º CD do grupo Terra Brasil, “Questão de Tempo”, em uma interpretação bem aberta, estilo samba jazz dos anos 60. Nessa gravação fiz solo sobre todo o chorus da música (ciclo de 32 compassos; experimente manter a melodia da música viva cantando-a durante meu solo, pois foi isso que fiz, explorando seus  ritmos, os espaços entre eles e frases de samba que surgiam enquanto eu improvisava), e tem Vitor Alcântara, sax, Antônio Barker, piano, Marcelo Gomes, guitarra e Zeli, baixo acústico.
Essa música também é um dos play-alongs do “Novos Caminhos da Bateria Brasileira” que toquei na feira.  

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Insensatez/How Insensitive in 7/8


Insensatez é uma bossa nova lenta, uma bossa-balada feita por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que escreveu uma das letras mais bonitas e profundas dessa parceria.
Originalmente em Bm (Si menor), a composição tem a magia musical e poética de tratar da tristeza e do pesar, sem entristecer, mas emocionar. No CD “Antonio Brasileiro”, o cantor Sting faz uma parceria com um dos maiores compositores da música popular brasileira de todos o tempos, Tom Jobim.

Originalmente escrita em compasso binário, fiz um arranjo em 7/8, numa combinação 2/4 + 3/8 que surgiu naturalmente em uma época em que eu estudava frequentemente compassos alterados. A nota longa no fim de cada frase musical possibilitava esse trânsito de um forma que me pareceu orgânico. A manutenção da atmosfera “bossa nova”, suave, fluida e sem ‘esforçar’ o 1º tempo a cada 7 bits é também parte essencial do conceito do arranjo. Usei vassourinhas e o Hi-hat em 7/4 a maior parte do tempo. Ouça o player acima.

Essa gravação foi feita em 1995 no CD “Tudo Bem”, do grupo Terra Brasil que esteve sempre muito presente em minha vida musical. Fizemos 5 CDs de jazz brasileiro em 15 anos de carreira e, em outras oportunidades vou mostrar mais músicas desse grupo que segue vivo em suas gravações. Tivemos nessa gravação a felicidade de ter como convidado Nailor “Proveta” ao clarinete e o que vocês estão ouvindo é o 1º take (1ª gravação) que fizemos assim que ele ouviu qual era a idéia do arranjo.

A interpretação transcorre como um standard de jazz numa noite informal com introdução, tema, dois chorus (ciclos da própria música) de improviso de clarinete, e trades (alternância de solos entre a bateria e outros instrumentos) de quatro compassos entre a bateria e a guitarra. Observem que os solos de baterias sob ponto de vista musical acontecem em 4 compassos de 7/8 ou em 2 de 7/4, o que matematicamente dura o mesmo tempo.

Espero que Tom Jobim não tenha ficado bravo e que vocês gostem. Esse CD não está mais no mercado e quem tiver interesse em conhecê-lo melhor entre em contato que posso enviar outras faixas em MP3.
Abaixo a partitura com melodia, cifras e uma guia para linha de baixo. A tonalidade foi mudada para Dm (Ré menor).


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Mágica da Música: Aqui e Agora

Onde você está? "Aqui". Que horas são? "Agora".

Ouvi isso no fim de um filme chamado "Peaceful Warrior" e era exatamente assim que me sentia no momento dessas fotos feitas na República Dominicana, em abril, e que chegaram hoje, 26 de agosto de 2011 do Caribe, feitas por Cristiane Grando, amiga, poeta e fotógrafa amadora de fino gosto. Algumas fotos foram feitas por Joanna Garcia.


Tocar é mágico. Ouvir o que a guitarra está tocando, o piano, o sax, o baixo, a voz, a percussão, ao mesmo tempo, com funções diferentes e desenhando todos juntos uma pintura única, variação sobre um bom tema.

Concentração total é uma das razões fundamentais porque faço música: não penso quando toco e me silencio  quando, “de fato”, ouço . Dar a vida por cada nota, como diziam os jazzistas pelas estradas americanas, ganhando pouco, sem todo glamour que às vezes se imagina, mas tocando e criando juntos com outros músicos, muitos deles grandes amigos...   

...Voltando ao tema, a mágica de fazer música acontece aqui, agora ou com você, em sua cidade, em seu país, com seu grupo, e não só nas estradas do passado do jazz dos anos 40, no hard rock dos 70, na música  impressionista de Debussy dos fins do século dezenove e princípio do século vinte...

Onde estamos? "Aqui". Que horas são? "Agora".


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Duo: Eddie Gomez e John Abercombrie

Assisti a muitos shows em NY entre 2006-10. Muitas vezes eu saí, ainda que sozinho, só para ver ao vivo e de perto um músico de quem eu realmente gostasse, como fiz com Ron Carter, numa noite com muita, muita neve, no fim de 2009. A bota afundava em montes de neve já derretidos por dentro e o pé inteiro, bota e meias ficavam encharcados... Mas tudo bem, essa noite valeu o movimento que fiz e, em geral, quase todas as vezes valeram a pena. John Scolfield com Bill Stweart na bateria, Chick Corea com Airto Moreira e Eddie Gomez, Duduka da Fonseca com Trio da Paz, John Riley - seu jazz groove e seus "acabamentos" impecáveis - com a Viillage Vanguard Big Band e muitas outras gigs mais informais com Brian Blade na bateria, Horacio Hernandez, Jeff "Tain" Watts e vários outros músicos que não são famosos no Brasil...

Mas esse duo foi algo de muito especial e uma nova referência de "fazer música". Eddie (www.eddiegomez.com) e John (www.johnabercombrie.com; foto: Curtis Burns) tocaram standards de jazz, como "Stella by Starlight", "Just Friends", "Autumm Leaves" e algumas composições do Abercombrie. A informalidade era clara e eles trocavam algumas palavras antes de iniciar as músicas, ora juntos, ora um deles propondo uma introdução em ritmo inesperado. Algumas vezes, John tocava o tema em bloco de forma livre, sem tempo definido, outras Eddie já saía improvisando sobre a música. Soava um quarteto porque ambos usavam a voz: Abercombrie balbuciando o próprio solo e Eddie, com sons diversos, cantando os solos, sons rítmicos, usando um diversidade incrível de timbres e trazendo uma expressividade à música que quase não consigo descrever. 

A forma como eles se ouviam, as diversas com que reagiam, a busca por texturas, a consciência absoluta da forma das músicas que eles cresceram tocando, mas que reviam, reliam e respeitavam-nas era emocionante. De vez em quando, eu abria meus olhos para ver como Eddie estava conseguindo certos grooves, com que movimento das mãos, usando a voz e com um grau de concentração que, ufff... É claro que, como baterista, seria natural que eu pensasse: "uma bateria ia ficar demais nesse som", mas isso não aconteceu. Eu nunca tinha ouvido Eddie Gomez com toda aquela liberdade tocando músicas que, em geral, eu conhecia, com um super guitarrista que tem um discurso moderno e de notas muito mais "ligadas" do que palhetadas, constrastando ainda mais com os grooves de um baixista acostumado a tocar com Steve Gadd e com todo o espaço mais e mais criativo... Demais!
Esse é o show do qual mais me recordo em meus quatro anos vivendo em NY.


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Alex Acuña: A música é um presente divino

"Reconheçam o presente que é a música. Tenham perseverança e disciplina. Essa última ajuda na formação do caráter do homem que é correto e sabe se comunicar. Saibam amar o próximo, a música, seus instrumentos e sigam seus sonhos firmemente. Pratiquem, escutem todo tipo de música e aprendam um instrumento melódico. A idade não importa, pois a música é um presente divino para os homens”.

Essa foi a resposta de Alex Acuña a “que dicas você daria para que jovens músicos caminhem rumo ao sucesso pessoal e profissional”, em entrevista que realizei em novembro de 2000, (Batera&percussão nº39) quando era editor da revista... É só por numa moldura e pendurar nas paredes das escolas de música, para inspirar o estudante e ajudá-lo a recordar 'o quê  ele está fazendo ali'.

Alex Acuña nasceu no Peru e com dezoito anos foi para os EUA com Perez Prado. Depois viveu em Porto Rico e me disse tocar profissionalmente desde os dez anos de idade, percussão e bateria com a “mesma atitude” em suas palavras. Adora música brasileira e sabe como tocar: “quando se gosta de uma música é fácil aprendê-la”, disse.
O grande marco em sua carreira profissional no universo do jazz norte americano foi o convite de Joe Zawinul para tocar com o incrível grupo Weather Report, em 1975.

Com o sucesso vieram outros desafios: “vivemos uma vida muito obscura e estive à beira da loucura nessa época, mas felizmente tive olhos para ver e ouvidos para ouvir que Deus queria minha vida para engrandecer sua existência. Se não tivesse “ouvido” não estaria aqui para “ver” tudo isso”, como  aconteceu com Jaco (Pastorius). Perguntei de que forma a religiosidade influenciava sua música e se existia uma religião específica e ele disse: “não é uma religião, mas uma relação. Está no meu coração e só”.

Alex disse que em casa estuda o que 'não sabe', o que tem de praticar e melhorar. Sobre a nova geração de músicos disse gostar muito de aprender quando surge um jovem músico tocando coisas novas, mas que, por outro lado, não gosta daqueles que imitam os grandes como Steve Gadd ou Dave Weckl. Alex tem grande consideração por Horácio Hernandez (estive com ele e fui super influenciado pela sua concepção de claves e pelo seu amadurecimento ao tocar simples e adequadamente 'quando a música pede' ainda que com todos os seus recursos, mas isso fica para outra postagem...) e Julio Barreto. 

Tive a oportunidade de me encontrar com muitos bateristas e percussionistas durante essa época e, claro,    recebi coisas boas de todos eles. Naturalmente me encantei mais com uns do que com outros, e assim são os encontros entre pessoas. Encontrar e conviver por algumas horas com Alex Acuña foi uma experiência diferenciada, sem a vaidade e o orgulho presentes em todos nós em maior ou menor grau. Foi um contato profundo e da qual sempre me recordarei.
Abaixo um vídeo com Acuna, Hoff, Mathisen Trio e outro 'quebrando tudo' em instrumentos de percussão e chegando até a bateria.





quarta-feira, 6 de julho de 2011

Big Band da Fundação das Artes!!!

Logo depois que cheguei dos Estados Unidos, em 2010, a Fundação das Artes de São Caetano do Sul, aonde trabalhei durante toda década de 90, me convidou para dirigir a sua Big Band, o que foi muito legal porque pude praticar exatamente o que havia estudado no mestrado com um grupo heterogêneo, estudantes e profissionais, populares e eruditos e músicos com diferentes níveis de experiência. 
Familiarizar o grupo com os gêneros que estávamos tocando e buscar a "pronúncia" das notas no swing correto foram nossos primeiros passos. Em seguida, os naipes tinham de desenvolver "uma voz" afinada e que caminhasse com passos de mesma duração e com uma intenção clara que começa antes da emissão da nota. Dinâmicas, 'crescendos' e 'diminuendos' foram sendo conquistados e a consciência do “foco” foi sempre um dos objetivos. Questões como: o que está acontecendo agora no grupo e qual a minha função? Meu instrumento é melodia, back-ground, está dobrando outro instrumento ou está em bloco? Se minha linha está em bloco, que voz do acorde ela está tocando? Qual a melhor levada para esta seção, que tipo de fill vai ajudar a banda a ficar mais confortável?.....
Acho que eu estimulei esse espírito de busca em parte do grupo, o que já é uma alegria. 

Da minha parte, além do compromisso em melhorar continuamente, liderar com gentileza, equilibrar seriedade musical com o bom humor pessoal é como entendo que deva ser conduzido um trabalho, qualquer que seja ele.Trabalhar com a "Big da Fundação" me ajudou a reencontrar alguns referenciais e uma certa alegria que havia se perdido em algum lugar, em algum momento, entre um e outro país. O astral entre eles é leve e divertido, o ambiente da escola é muito bom, sem falar no fato que estou de volta ao meu país, minha cultura, e falando minha língua...
Abaixo duas peças tocadas pela "Big da Funda" em 21 de junho, 2011: "Maracatu-Check This Out", que fiz algum tempo atrás e "Aquela Coisa", Hermeto Pascoal, arranjo Felipe Salles, sax tenor solista convidado deste concerto.


domingo, 26 de junho de 2011

Renato Santoro: partindo cedo demais

De tempos em tempos, nas infinitas comunidades que se formam por companheiros de trabalho somados a amigos e familiares, alguém adoece e normalmente as enfermidades são superadas pelo labor silencioso e incansável que a vida faz em pró de sua própria continuidade. Às vezes, porém, surge uma doença forte o suficiente para interromper uma história, como se inacreditavelmente os atores parassem uma cena no meio da peça e o teatro inteiro caísse sobre nossas cabeças.

De tempos em tempos, algum entre nós tem de partir e seguir viagem em itinerário que nos não foi dada a oportunidade de conhecer, pelo menos não enquanto uma verdade estabelecida e aceita pela maioria.
Domingo, 19 de junho de 2011, Renato Santoro, um amigo querido por muitos, músico, filho, marido, pai e por vinte anos professor da Fundação das Artes de São Caetano do Sul, nos deixou e seguiu viagem, ficando um vazio cheio de tristeza, especialmente para sua família e seus amigos mais próximos.

Todos nós sabemos que um dia vamos partir e deixar essa realidade que chamamos “vida”, mas quando a partida acontece de forma precoce por razões que, mais uma vez que nos fogem à compreensão, o pesar é bem mais profundo do que quando os ciclos naturais são cumpridos. Infelizmente, doenças acontecem premeditando despedidas e despedaçando corações.

Felizmente, aprender a amar, em todas suas infinitas formas é sempre a maior entre todas as lições na escola da vida. A despeito do que se fala, não chegamos nem partimos sozinhos. Pelo contrário, a essência maior de viver é conviver e de fazer música é tocar em grupo...

3a feira, 21 de junho de 2011, os grupos que Renato Santoro dirigiu nesse semestre (http://www.youtube.com/watch?v=fzj59bwcOjg&feature=related) e a Big Band que dirijo na Fundação das Artes se apresentaram em um concerto dedicado a Renato. Na 1ª parte cada um dos cinco grupos tocou duas músicas e na 2ª a Big Band com Felipe Salles como convidado apresentou cinco peças. Todas as músicas, arranjos, todos os gestos, cada nota e cada ritmo que tocados naquela noite foram uma homenagem ao nosso amigo Renato Santoro. Toda energia que fomos capazes de produzir e toda alegria que fomos capazes de despertar no público, ainda que nesse momento machucado, mas já precocemente saudoso, foi dedicada a Renato e a sua família.

Abaix Eder Sandoli e Renato com seu 'Duo Quase Acústico' tocando "Linha de Passe"de João Bosco. Muito mais pode ser ouvido em seu link:




  27 de junho de 2011,
 Um grande abraço para o Renato 
e para todos  aqueles que lhe são caros.

      Com amor, Sergio



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Play-alongs podem ser muito úteis!

Play-alongs começaram a ser usados como recurso pedagógico no processo de aprendizagem e prática de instrumentos musicais desde fim dos anos 70 e hoje fazem parte de qualquer programa de ensino em escolas, conservatórios, no ensino superior e em aulas particulares. Bom sempre ter em mente que uma gravação com uma pista livre, não importa para qual instrumento é um meio e não um fim, um momento de prática e aperfeiçoamento para, de fato, tocar. Com o play-along de um tema latino, pop, jazz e mais recentemente em temas brasileiros, o músico pode repetir diversas vezes uma faixa experimentando conduções diferentes, frases diferentes em solos e o grupo não reclama com ele...

Por outro lado, no caso do jazz enquanto abordagem estilística, com improvisação e interação entre o grupo a cada instante, é preciso estar atento para que o treinamento com play-along não desenvolva uma percepção um tanto isolada e dificulte a conversa musical, um dos grandes prazeres do músico, da música e do público conectado. Na verdade essa conversa no que diz respeito à música ao vivo, shows e apresentações acontece em qualquer estilo, mas com critérios diferentes. 

Ao mesmo tempo, os play-alongs são ótimos para um workshop aonde a participação de um grupo não seja possível em função da estrutura do evento. Muitas vezes não há dinheiro suficiente para o cachê, alimentação, hospedagem e transporte de uma banda, então levar gravações em um ipod certamente vai criar a oportunidade de mostrar os ritmos e conceitos que estão sendo tratados no workshop. Além disso, o público não ouviu as gravações tantas vezes quanto o professor/artista e então a sensação mágica de uma apresentação musical é criada muito mais em função da energia do artista/professor.
Play-alongs podem ser muito úteis!

Abaixo, dois play-alongs de meu livro "Novos Caminhos da Bateria Brasileira", tocados em São João da Boa Vista, 28 de maio de 2011. Primeiro Dança do Maracatu, em seguida Bluesamba, ambas com várias interpretações de bateristas de diversas partes do Brasil, postados no youtube.

Quando puder, visite meu site www.sergiogomes.com e veja vídeos das mesmas músicas tocadas em grupo e sinta  diferenças de andamento, energia e comunicação entre os músicos. 




quarta-feira, 1 de junho de 2011

6º Encontro de Bateristas de São João da Boa Vista


Dia 28 de abril, toquei no 6º Encontro de Bateristas de São João da Boa Vista, cidade a pouco mais de 200 km de São Paulo. O idealizador e realizador do evento é Henrique Mérida, grande baterista e músico com formação musical consistente. Educador muito em dia com todos os movimentos do mundo da bateria, Henrique dirige um escola aonde vem formando bateristas de qualidade, muitos dos quais pude ver e ouvir tocando no próprio dia do evento. Além de Henrique, se apresentaram dois outros artistas do time da RMV, Fernanda Fight e eu, que mostrei parte de meu trabalho de pesquisa com os ritmos brasileiros, numa tarde mais de solos e play-alongs do que exercícios e explicações.

Não pude deixar de me lembrar do Cascavel Jazz Festival, realizado pelo baterista William Fischer, onde estive com o grupo instrumental Terra Brasil, alguns anos atrás. O evento começou como um encontro e concurso de bateristas e foi se desenvolvendo na medida em que o retorno de público foi crescendo e novos patrocinadores se interessaram em apoiar a iniciativa sonhadora de uma só pessoa. Em São João, o processo é muito semelhante e se aquele que sonhou e se dedicou muito para realizar um evento artístico e cultural em sua cidade tivesse que interromper seu trabalho por algum motivo, “um abraço”, o 6º Encontro de Bateria de São João da Boa Vista não teria acontecido e em Cascavel, o encontro/concurso não teria se tornado um festival com a participação de alguns dos mais conhecidos músicos do país.

Quero deixar aqui meus “Parabéns” para Henrique, William, Vera Figueiredo (www.verafigueiredo.com.br) e todos aqueles que se dedicam à realização de eventos culturais de qualquer natureza em sua cidade, movimentando a cena, contribuindo positivamente para sua comunidade e estimulando o aparecimento de futuros artistas, que talvez nunca sonhassem com essa possibilidade.

Abaixo um solo aberto sobre tema de samba rápido que fiz na abertura da minha participação. É longo...


Ainda tive um prazer especial ao estrear minha nova bateria RMV, (foto ao lado) bumbo de 18/16", médio-agudo, com peso e definição muito bonitos, cor madeira natural super elegante e tambores curtos, 10/8", 12/8", 14/13", porém profundos e ressonantes na medida certa. Caixa de madeira, 14/6", com muita  sensibilidade de esteira ainda que com afinação média que eu uso. As peles porosas (coated) da RMV em todos os tambores, incluindo o bumbo.


sábado, 14 de maio de 2011

Quando entrevistei Jack DeJonhette: a clave do jazz

No fim do século XX (parece sério!), eu escrevia colunas musicais e eventualmente fazia entrevistas para a revista Batera&percussão. Nessa ocasião, Jack DeJonhette veio ao Brasil fazer um show com Toninho Horta e, claro, sugeri que fizéssemos uma entrevista com um dos maiores bateristas de jazz de todos os tempos. A entrevista está na edição 22, junho de 99.
“Miles Davis, em sua autobiografia, disse que você é o baterista mais profundo com quem ele já tocou”, eu disse quando Mr. DeJonhette seguiu: “Miles é um grande amigo e um grande músico também. Aprendi muito com ele, desenvolvi muito minha percepção inspirado na visão dele. Também aprendi o que não fazer”. Num outro trecho da entrevista eu perguntei sobre solos: “(...) Num standard, por exemplo, muitos pensam sobre a melodia, outros sobre quadraturas de quatro ou oito compassos... Em que você pensa?”. “Penso sobre frases, melodia, ritmo, som, cores... Penso sobre tudo isso”. Eu tinha a sensação que sua resposta seria assim: ampla e vaga, mas perguntar não ofende, não é mesmo?

O momento mais marcante foi quando ele falava sobre seu interesse em ritmos latinos, pelo estudo de claves e comentei que o samba, assim como o jazz não tinha uma clave, mas ele imediatamente disse: “Oh! O jazz tem clave sim. O jazz, o swing vem da África, do 6/8 (batucando na mesa), 6/4 na verdade...”
Eu transcrevi o que ele batucou na mesa (parte acima), uma variação do Bembe, 12/8 enquanto frase quaternária, mais normalmente chamada 6/8 como natureza de subdivisão ternária interna de cada pulso, o que chamamos de compasso composto na teoria musical brasileira. Enquanto batucava o afro-cubano ele batia o pé direito no chão (bumbo) e o esquerdo nos tempos 2 e 4 (Hi-hat). Então começou a cantar um Tin Tinti Tin, o prato do jazz, mantendo o bembe e incorporando-o ao jazz...    

Por trás de um 4/4 de jazz há uma tribo africana tocando ritmos compostos, matrizes do afro-cubano de subdivisões ternárias. Dentro de cada semínima vivem três notas, fazendo com que o grupo binário seja pronunciado de forma ternária, a famosa colcheia do jazz, com “swing”. Ficam questões como: qual o conceito de clave para Mr. DeJonhette? Nesse sentido, qual é a clave do samba? O samba ou o baião tem claves?
Dá o que pensar, não é verdade? Mas vamos deixar essa conversa sobre o conceito de clave para outra postagem.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Tocando Jazz em Samba: Conexão com o Público


Fazer um arranjo que proponha a mudança do ritmo de uma música de seu estilo original para outro pode ser interessante musicalmente e, em certos contextos, ajudar a estabelecer mais conexão com o público. Ainda que a harmonia, o ciclo de acordes que é o corpo da “voz” chamada melodia seja mantida, o ritmo que é sua “estrutura óssea” toma novos rumos agora que inserido numa outra “natureza” de subdivisões. No standard de jazz “Yesterdays” (vídeo abaixo), um arranjo simples que fiz baseado na mudança rítmica do jazz e sua natureza de subdivisão ternária para samba e sua natureza quaternária, com alguns deslocamentos do ritmo da melodia, convida os músicos improvisadores e todo grupo a uma brincadeira musical que demanda conhecimento de ambos os estilos.

O outro ponto a que me referi é a conexão que se estabelece com o público. Para o músico ou grupo de jazz que quer ampliar esta ligação, tocar músicas que todos conhecem em determinada cultura é uma das maneiras de fazer isso acontecer. A reação do público é imediata, como nesse show em Indiana, nos EUA, quando o standard de jazz  Yesterdays de Jerome Kern (não confundir com a linda balada “Yesterday” dos Beatles) foi tocada  em sua forma original e em seguida em sua ‘nova roupa tropical’. A conexão com o público é muito importante e sem ela parte da mágica se perde, uma vez que a música que um grupo (ou um solista) produz não vai até o coração das pessoas e retorna criando um movimento em espiral de energia positiva. Parece conto de fadas, mas não é... Afinal há algum músico no mundo que queira tocar para uma sala vazia? Algum grupo que quer mais gente no palco do que na audiência?


O vídeo: Tom Walsh ao sax tenor, Jeremy Allen, baixo, Marcelo Gomes, guitarra, e eu na bateria em Bloomington, 08. A câmera estava um pouco distante, então o nível de ruído está muito mais alto do que ao vivo, no momento em que tocávamos.  Reparem na primeira exposição muito bonita do tema em bloco, com muita flutuação rítmica feita por Marcelo e com o Jeremy já em walking bass. Então, tocamos o tema mais uma vez já em samba, seguido de improvisação do sax, baixo e um ‘chorus’ de bateria para a volta do tema. Enjoy!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

"El Jazz desde la perspectiva caribeña"

Acabo de participar de um congresso de jazz na República Dominicana, de 15 a 17 de abril, 2011. Estive lá ouvindo músicos/professores, musicólogos e produtores musicais sobre as perspectivas do jazz no Caribe, mas com extensões para a América Latina como um todo. Também apresentei um seminário sobre “ritmos brasileiros: da tradição ao jazz brasileiro”, para uma sala lotada e super interessada em saber tudo sobre música brasileira, assim como nós: eu, Marcelo Gomes (www.myspace.com/marcelogomesguitar), que falou sobre o Samba Jazz e Thais Nicodemo (www.myspace.com/pianothaisnicodemo), que falou sobre a obra de Ivan Lins, estávamos sedentos pelo conhecimento e experiência sobre a música caribenha e pelo que chamamos ritmos latinos, ou cubanos.

Giovanni Hidalgo era um dos convidados no concerto central, 15/04/11, no teatro municipal de Santiago. Filmagem inédita que fiz com minha câmera de fotos... Mas dá para sentir a energia!!
República Dominicana é o país do merengue e com a presença de músicos porto riquenhos e cubanos ficou ainda mais claro como é rico e bonito o universo dos ritmos latinos, e como muitas das distinções, detalhes e sutilezas da música caribenha não são simples de serem compreendidas. O contraste entre o afro-cubano 6/8 (o Bembe), e os ritmos de clave 4/4 como mambo, rumba ou merengue é utilizado com freqüência em arranjos e também como material para solos. Por exemplo as tercinas agrupadas em quatro sobre um ritmo de clave 4/4 ou vice versa são como divertimentos para os percussionistas, as grandes estrelas da música caribenha, que foi desenvolvida essencialmente em Cuba, mas que foi tendo desdobramentos da Colômbia à Nova Iorque. Um sexteto latino pode muito bem ser um piano-baixo-bateria e mais três percussionistas. Certos arranjos de harmonia simples (sob o ponto de vista da bossa nova) pareciam grandes tecidos/bases para a festa da percussão.

O congresso foi Santiago de los Caballeros, mais ao norte da ilha, onde estão República Dominicana e Haiti, onde foi a primeira chegada de Colombo e a Calle Las Damas (foto ao lado) é considerada a 1ª rua da América. Tocamos no congresso e no Dominicain Jazz Fest em Santo Domingo (foto acima), a capital. Foi muito bom sentir o envolvimento do público com o jazz brasileiro e sua alegria ao ouvir temas de bossa nova como “Wave” e “Meditação”. É incrível como a bossa nova representa o Brasil pelo mundo e digo isso baseado também em shows que fiz em muitos outros países e nos quatro anos que vivi em NY (2006-10). Esse fato, para mim, tem dois lados que são o prazer de que música de qualidade brasileira seja admirada e, ao mesmo tempo, um certo "aprisionamento” da "Música Brasileira" à bossa nova, aos anos 60, tempos de grande impacto no mercado norte americano, só que há 50 anos atrás... Depois disso muita mais coisa aconteceu em termos de música brasileira em geral, mas falamos disso em outra postagem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Jazz nos Fundos - Felix Astor e banda
Aprendendo (?) a ouvir Jazz


Assistir a um show bom é sempre muito bom. Ver e ouvir músicos bons tocando é sempre muito "bons" também. Oito de abril, 6ª passada, fui ao Jazz nos Fundos, uma casa noturna moderna e com diferenciais interessantes, como, por exemplo, um sinal que toca para anunciar o começo do show e elegantemente convida, através de uma gravação, que as pessoas respeitem aos músicos e ao público, falando baixo ou se afastando do palco quando quiserem realmente conversar... http://jazznosfundos.net/

O show da noite era de um amigo especial, Felix Astor, um grande baterista de jazz alemão e que tem um trabalho de pesquisa verdadeiro com a música brasileira. Além de conhecer os principais ritmos, ele toca percussão, fala português, toca e canta um repertório de mais de 100 músicas (sambas e bossas) ao violão. (www.felixastor.de) Determinação e dedicação total, Felix já viveu por duas vezes no Brasil e nessa última visita formou uma banda com Gabriel Improta, excelente violonista e compositor carioca, Zeli Silva ao baixo e Antônio Barker ao piano, ambos com carreiras notáveis como solistas e acompanhantes e, com os quais trabalhei vários anos no grupo de jazz brasileiro “Terra Brasil”, duas vezes indicado ao Latin Grammy. No repertório da noite, músicas próprias e temas como “Corrupião”, Edu Lobo, “Nanã”, Moacir Santos, uma versão em samba de “Well, You Needn't”, de Thelonious Monk, “Amazonas”, João Donato, entre outras. Assista a primeira entrada através desse link: http://www.ustream.tv/recorded/13866710

Eu estava com um grupo de amigos, alguns músicos, outros não. Com um deles, que trabalha na área de administração, surgiu o papo sobre o jazz, seus fundamentos e procedimentos. Como os músicos, de repente, terminam juntos, como ‘floreiam’, termo que usou se referindo à improvisação e depois, misteriosamente, a ‘música’ (ele se referia à melodia) aparece de novo. Gestos e olhares entre os músicos que decidiam o rumo do ‘arranjo’, essas coisas todas que permitem que músicos de qualquer parte do mundo que compartilhem desse universo e seus códigos, possam fazer música juntos. Como esse meu amigo conhecia a melodia de “Amazonas”, eu segui cantando para ele a melodia enquanto os improvisos aconteciam e ele percebeu o movimento das partes, a harmonia diferenciada da parte (B) da música, tudo sem nomes e especulações teóricas que cabe a nós, músicos, fazermos. No intervalo eu comentei sobre a forma AABA daquela música e um pouco sobre procedimentos usuais na prática jazzística. A maneira como ele começou a ouvir o som se transformou completamente e podia sentir quando um dos músicos iria terminar seu solo, o outro começar, quando a melodia voltava e, fundamentalmente, que o ciclo harmônico girava sem parar, estabelecendo limites que, de fato, tornam infinitos os desafios para os músicos.

Interesse e prazer passam, eventualmente, pelo entendimento... e tudo isso numa conversa de bar.

sábado, 26 de março de 2011

“Todo músico cubano toca percussão”... de uma conversa com o mestre Chucho Valdés

                            
Chucho's Steps - novo CD

Chucho Valdés, líder do grupo Irakere e ministro da cultura em Cuba nos anos 90, me disse numa conversa informal que “todo músico cubano toca percussão”. Todos os músicos, certamente cada qual em seu nível devido à sua especialização, mas todos com noções claras dos ritmos cubanos, o maior patrimônio de sua música.

Como professor de música no ensino superior por 15 anos,  penso que o curso de música (popular ou erudito) deveria ter um ano de piano e um ano de percussão como matérias curriculares, não optativas, para todos os estudantes. Mas, independente disso, o que de fato, sempre me deixou curioso é, em geral, a falta de interesse do baterista – e não importa o estilo com o qual trabalhe – em relação à percussão brasileira, seus instrumentos, combinações, sua diversidade incrível. É preciso tocar os instrumentos, pandeiro, zabumba, berimbau, tamborim (e por aí vai...)? Não. 

Não é questão de ser preciso ou necessário para o baterista que quer tocar samba, por exemplo, tocar todos os instrumentos de uma escola de samba. Estou falando sobre conhecer a nossa própria tradição, nossa história, um pouco do itinerário dos ritmos brasileiros, suas principais linhas e funções dentro dos grupos de percussão onde foram desenvolvidos. Estou fazendo uma reflexão sobre perceber a conexão entre a bateria e a percussão, esse luxo, essa riqueza, esse patrimônio que pessoas no mundo inteiro admiram e querem aprender, e que alguns de nós, músicos brasileiros, bem, não estamos tão interessados assim.

Viver quatro anos nos EUA (2006-2010), aonde ser um especialista em música brasileira tornou-se minha profissão, fortaleceu minha visão do "produto" que é nossa música na 'América' e na Europa. Quando eu falava que era baterista e brasileiro, era sempre motivo de alegria e de muita expectativa para saber sobre os ritmos brasileiros. Para mim tudo isso foi muito natural, porque já era meu objetivo no Brasil tornar-me um conhecedor de nossa cultura musical, o que sigo fazendo dia após dia, pesquisando, tocando e estudando. Para outros, serviu de estímulo para conhecer o Brasil de fora do Brasil, como contam muitos músicos... 

Uma outra coisa importante que percebi é que, de novo, alguns de nós, brasileiros, temos o péssimo hábito de “cuspir para cima”. É preciso estar atento em relação a isso, uma vez que há muita coisa boa à nossa volta que já não conseguimos mais “ver”, a começar pela relação humana que temos por aqui e pela nossa cultura musical. “Aqui vocês tem a vantagem de ter uma música que é rica em tudo: harmonia, melodia, ritmo e isso é muito bom”, me disse Horácio “El Negro” Hernandez numa entrevista que fiz anos atrás, numa conversa com esse outro músico cubano espetacular... Mas essa história, conto numa outra postagem.

domingo, 20 de março de 2011

De uma aula com Keith Copeland: A Intenção Musical

Nos anos 90, participei do Banff Jazz Workshop, no Canadá, e tive aulas de bateria com Keith Copeland, famoso baterista de jazz de Nova Iorque que tocou e gravou com muitos artistas importantes como Milt Jackson, Stan Getz, George Russel, Paul Bley, Ernie Watts, o pianista Hank Jones e muitos outros... Jones não é coincidência não, ele é irmão do Elvin Jones, um dos maiores e mais influentes bateristas do jazz a quem todos nós conhecemos. “I’ve made six records with him (Hank) and he is one of the greatest musicians I have ever played with”, Keith diz em sua biografia. Uma dessas gravações é o CD, “Lazy Afternoon”, do qual fiz algumas transcrições e que é um disco muito bonito. Todos solam em quase todas as faixas, com exceção da bateria em duas ou três baladas.

Numa aula com Keith, eu perguntei sobre escovas no compasso ternário lento, como na canção “A Child is Born”. Ele me mostrou o movimento básico que fazia e algumas possibilidades de variação. Depois me olhou e disse que numa balada como aquela e que baladas de uma forma geral falam sobre amor, em suas letras e através de suas melodias. “You should play brushes with love, Sergio”, ele disse e sugeriu que eu praticasse os movimentos e que estudasse sempre que pudesse, mas que “escovasse com amor.” Talvez pareça um ensinamento simples (?), mas do qual nunca esqueci: ‘tocar com a intenção musical clara na mente e com o coração nas mãos.’

Keith, http://www.keithcopeland.com, tem de mais de 100 gravações de jazz em seu currículo, o livro “Creative Coordination for the Performing Drummer”, onde aborda o estudo do jazz em diferentes andamentos (bem interessante) e segue tocando com músicos em turnês pela Europa e USA. Hoje ele vive em Colônia (Koln), Alemanha e é professor da Hochschule fur Musik Koln, uma das escolas onde dei workshop na Europa, mostrando como estudar ritmos brasileiros através do meu livro “Novos Caminhos da Bateria Brasileira” em sua versão inglês/espanhol. Para mim foi uma grande alegria ter Keith Copeland presente em um de meus workshops.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O que a música pede... Comentando entrevista de Esperanza Spalding

Como assim 'o que a música pede'?
Uma balada pede ao baterista uma levada mais suave, pede por um instrumento com o som mais aveludado para a melodia, como sax tenor em região média, piano ou guitarra acústica... Pede por baixo acústico ou fretless, por escovas (ou vassourinha), um prato com ‘chuveiro’, pouco bumbo e sempre suave, sem excesso de ornamentos mesmo que com as 'vassourinhas'... Muita movimentação ainda que com pouco volume, pode deixar a condução ansiosa e, provavelmente, não é isso o que a música pede... Talvez ela peça um pouco menos ‘você’ e mais pela “sua” melhor contribuição para ‘aquela música’ e para ‘aquele arranjo’.

Em uma entrevista muito interessante, dada a Jeff Potter pela baixista/vocalista/compositora, Esperanza Spalding  - http://www.esperanzaspalding.com - para revista Modern Drummer americana e publicada pela MD brasileira em fevereiro de 2011, ela diz “... Procuro por pessoas que conseguem pensar como arranjadores quando estão tocando uma música individualmente e também como um todo (em um show), (em grupo no meu entendimento, eu, Sergio) permitindo que cada música tenha sua própria vida e identidade. Espero que os bateristas sejam livres o suficiente quando estão tocando e ouvindo para trazerem ‘o que a música está pedindo’. Muitos bateristas tendem a pegar tudo que sabem e querem usar, mas o difícil mesmo é aprender a contextualizar tudo que você sabe e ‘editar’ as coisas para o bem da música, saber o quê e quando usar.”

Como baterista, e penso que isso vale para qualquer músico, quantos mais recursos você tiver, em princípio, mais interessante pode ser sua contribuição, tocando e ‘ouvindo’ sempre. Por outro lado, selecionar o que usar evitando exageros desnecessários e quando usar, valorizando a contribuição do instrumento para a música e seu arranjo, é essencial. Se for um groove feroz de funk que a música pede, então dê isso a ela e prazer ao público, que é um dos nossos principais objetivos, mas pense sempre um pouco como um arranjador e ouça toda a música e o que todos os músicos estão tocando. Não se preocupe, sempre há um espaço para alguma coisa mais especial, mais com a ‘sua cara’ que você pode usar, que você pode “dar àquela música.”