domingo, 16 de setembro de 2012

Samba Reagge e Samba de Roda

Em julho passado, fui convidado para dar um workshop sobre liderança de grupo de percussão no projeto Tamar em Arembepe, Bahia. Além de percussionistas que lideravam grupos, vieram mestres de diversas comunidades de cidades próximas e formou-se um grupo com gente de todas as idades. 
Decidi falar mais sobre arranjo e forma musical, o que seria importante para os percussionistas e para todos os envolvidos e, claro, poderíamos fazer algo juntos para tocar ao final. Trabalhei com o que eles trouxeram e com o que era natural para tocarem.


Começamos com uma canção que trouxe um dos mestres sobre uma base de samba reggae, alguma variação de instrumentação e uma ponte para preparar um samba de roda como 2ª parte do arranjo. Depois  a 1ª canção volta sobre o samba de roda, com sua dança solo no centro da roda, típica do gênero.
Introdução, 1ª canção em samba reggae, ponte, 2ª canção de samba de roda, 1ª canção sobre o samba de roda e coda de abraços, o que aconteceu espontaneamente.

 A beleza do local, você pode ver no vídeo abaixo e nas fotos que fiz. A energia musical foi muito intensa e o carinho da equipe do Tamar e dos participantes foi muito gostoso.



sábado, 1 de setembro de 2012

"Portas de Cascavel"

Abaixo o  vídeo de um show, Sergio Gomes e Convidados, em Cascavel, Paraná, 24/08/12. No baixo, Odilon de Carvalho; piano, Tiago Mineiro; sax, Rodrigo Nascimento. A música é "Portas de Parati", uma composição que fiz para meu 1º CD, Cidades Imaginárias.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Times Square



Sempre bom ver seu trabalho andando por aí, no Brasil, EUA, Europa e países asiáticos. Pode ser uma gravação, um CD, um livro, como esse da foto, feita em loja na Times Square, em NY, por Kim Pereira, grande baterista carioca  e meu parceiro de RMV drums.


No projeto de um livro, há muito mais a ser  apresentado do que informações  de qualidade. Isso é só o começo. Um livro envolve um proposta didática que o identifica e o diferencia dos demais. Se bons professores e boas escolas adotam um determinado livro, é certamente porque ele propõe um caminho de estudo que os ajuda a guiar o estudante, manter seu estudo organizado e abrir novas perspectivas sobre certo tema.

"Novos Caminhos da Bateria Brasileira" foi adotado por muitos professores e escolas de 1ª linha aqui no Brasil e no exterior, o que me deixa bastante satisfeito e entusiasmado com o interesse crescente pelo estudo da música brasileira por parte das novas gerações.
Abaixo, guia do workshop do Encontro de Bateristas de Cascavel, que farei no próximo fim de semana, dia 25 de agosto, 2012. Todos os exercícios estão no livro, mas aqui organizados para o Encontro. Em meu site www.sergiogomes.com, você pode assistir os ritmos e suas coordenações na seção de workshops e no site do evento http://www.bwacultura.com.br/encontrodebateristas/2012/, você pode fazer download destes estudos.




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Big-Band e Nenê Trio


Em 21 de junho deste ano, 2012, a Big band da Fundação das Artes fez um concerto muito especial, tendo o Nenê Trio como convidado. Os arranjos eram do compositor e um dos maiores bateristas brasileiros, Nenê, sobre músicas de sua autoria.
Na direção da orquestra popular, outro baterista, compositor e arranjador, de forma que uma noite conduzida por bateristas. Meu trabalho foi o de entender as composições e de preparar o grupo para receber o trio, tocando as peças da melhor e mais musical maneira que pudemos.


O trio é formado por Alberto Luccas (esquerda), baixo acústico, Írio Junior (direita), piano e Nenê, bateria, composições e arranjos. Alberto e Írio são músicos excepcionais e formam com Nenê um trio de jazz brasileiro contemporâneo, que se comunica e arrebenta em improvisações modernas, ora na forma da música, ora num ciclo harmônico para criação. Abaixo, o vídeo de "Nem Tudo Está Perdido".

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cine-Cuba



Nunca comecei uma composição na bateria. Elas surgiram sempre a partir de ideias melódicas e estudos harmônicos que costumo praticar no piano. Só depois de passado algum tempo é que eu percebia com mais clareza o ritmo da nova composição e, claro, sempre estava relacionado ao que eu vinha estudando na bateria na ocasião. Com certeza, uma 'onda rítmica' já estava dentro de mim enquanto eu compunha, mas isto só ficava claro depois de algum tempo.
Uma vez que a música já estava mais desenvolvida, eu ia para bateria para desenvolver formas de tocar certo ritmo tradicional, variações afins e novas ideias. Estudar e se familiarizar com 'mundos musicais', que são os estilos e suas possibilidades, é ponto de partida para criação de ideias musicais que soem orgânicas e interessantes, tanto para a composição, como para os caminhos para tocar a bateria.

"Cine-Cuba" é um tema afro-cubano em forma clássica AABA, e como tal, apresenta grande contraste entre a 1º e o 2º tema. Na ocasião, eu estava estudando ritmos latinos e desenvolvendo a relação entre a clave composta do afro-cubano, ternária/ímpar, e da rumba, simples/quaternária. 
O termo 'Cine' nasceu da parte B da música tocada pelo piano em oitavas, que soa como a trilha sonora de um filme bonito, em contraste com o caráter dissonante da parte A, tocada pelo sax, ou sax/guitarra. 'Cuba' vem do ritmo afro-cubano tradicional, ou bembê.

Essa música está gravada no CD ‘Questão de Tempo’, 5º trabalho do grupo Terra Brasil. 
Visitem a Revista online www.obaterista.com/licoes, onde escrevo e há vários exercícios sobre o assunto.


Abraço, 
Sergio

domingo, 15 de abril de 2012

"Impressões" - Momento Inesquecível


Estudos diários, bateria, harmonia, aulas, arranjos, ensaios, grupos, workshops, shows, divulgação, carregar bateria, percussão...
Às vezes eu paro, olho e penso "que trabalho!" Depois de mais de 20 anos nessa trilha eu percebo que todo esse trabalho faz sentido quando toco um som bonito ou gravo algo que vai deixar marcas nos músicos e agradar apreciadores de música em geral.

Não é todo dia, claro, mas quando a música é boa e com músicos afins tudo parece mais claro e somem as dúvidas no ar. Não há um estilo definido, mas preferências pessoais, coerências musicais nas escolhas das notas e ritmos, na cor dos acordes e nas texturas que se criam. O CD "Impressões", com Sergio Rossoni Grupo foi um desses momentos especiais e que ficou gravado para ser ouvido, curtido e que sempre me leva àqueles meses de preparação, profunda amizade entre os músicos e resultados musicais que ficaram bons, com alma. Tudo tocado muito ao vivo, todos juntos, dois ou três 'takes' de cada música.

O CD nasceu a partir do encontro entre o fotógrafo Ricardo Burg com Sergio na exposição "Encontros com Brasil". Burg viajou 11 meses fotografando por todo o país e Sergio compôs cada música inspirada em uma seleção de fotos temáticas. O encarte com as fotos faz parte da obra, as composições guardam uma unidade em diferentes ritmos e uma atmosfera que se mantém das primeiras as últimas notas, um trabalho muito inspirado do  Sergio Rossoni (foto ao lado) nas composições e guitarra. 
No CD, Marcelo Mainieri, baixo, José Pena, flauta, Léo Mitrulis, piano e eu na bateria e percussão.


Selecionei três músicas para você que acompanha meu blog. 
Um abraço,
Sergio

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Nos Bastidores dos Tambores


Encontrei um filmagem feita algum tempo atrás por um amigo, Daniel, que na época era meu aluno. Ele costumava ir aos shows do meu quinteto com uma câmera e filmava para que depois pudéssemos assistir, comentar e também porque ele curtia 'filmar'. Nesse vídeo abaixo, ele ajeitou a câmera ao meu lado, de forma que só dá para me ver e, às vezes, um pouco o Robertinho Carvalho, no baixo.


O resto da banda pode ser ouvida, claro, e sentida através das minhas expressões, pelo modo como reajo (ou não) ao que eles estão propondo musicalmente. "Eles" são Moisés Alves, piano, Vitor Alcântara, sax soprano e Anderson Quevedo, sax alto. Grandes músicos/amigos e que me desculpem pela ausência de suas imagens. A música é "Cidades Imaginárias" e nenhum nós se lembrou da câmera, então é tudo muito espontâneo.

Para os bateristas, há diversas levadas de baião que faço no Hi-hat, pratos (cymbals), agogô com mão direita, ambas as mãos na caixa (snare drum), movimentação do chimbal (Hi-hat) e cowbell com o pé esquerdo e diferentes 'fills'. Depois de conhecer a música, seu tema e motivos, observem que desenvolvo o solo inicial sobre o motivo central do tema.
Nos bastidores do tambores, aquele área que o público quase não vê, concentração nos solos, convenções, nos músicos e em como contribuir para que a música fique sempre mais bonita de se ouvir.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Medusa" - Música e Grupo


O samba que você está ouvindo agora (player acima) chama-se "Medusa" e compus inspirado pelo trabalho do grupo  instrumental brasileiro de mesmo nome e que foi muito importante no começo dos anos 80. Com Amilson Godoy, piano, Claudio Bertrami, baixo, Chico Medori, bateria, Heraldo do Monte, guitarra, Théo da Cuíca e Jorginho Cebion, percussão, em sua primeira formação, o grupo  produzia um som moderno, brasileiro, com muitas convenções e seções para solo de todos os integrantes. 

Em 1981 lançou seu 1º disco, "Medusa" e, em 83, sem Jorginho e com Olmir Stocker na guitarra, o grupo lançou "Ferrovias", seu segundo e último disco. A cuíca de Théo dobrava melodias em certas seções e era uma presença marcante no som do grupo. Inspirado por ela e por todo som que esses grandes músicos produziram naquela ocasião, compus "Medusa" que está em meu CD solo "Cidades Imaginárias" (disponível para compra online: http://www.cdbaby.com/Search/Y2lkYWRlcyBpbWFnaW5hcmlhcw==/0 ) dedicado ao grupo. Para ouvir o grupo Medusa: www.myspace.com/grupomedusa

Na música, o contra-baixo toca a frase de 'centro', que tanto funciona como 'introdução', como base sobre a qual toda a parte 'A' da música foi desenvolvida. Trata-se de um ostinato (frase ou célula musical que se repete) que foi desenvolvido a partir de uma frase de samba da "velha guarda da mangueira" e que depois percebi ser também uma frase tética e tradicional  de samba, como um telecoteco enxuto, com menos notas duplas, começada com antecipação de uma semicolcheia. 
Abaixo você pode ver a frase com antecipação (1) e a frase de samba tética (2). É legal pensar sobre e se divertir com esse deslocamento tocando em seu instrumento.

Abaixo e a direita a frase melódica do baixo em Cm (Dó menor) numa composição que caminha para EbM (Mi bemol maior) na parte 'A' e que usa exatamente o ritmo da frase antecipada.

Na cuíca, o percussionista "Ligeirinho", que tocou a cuíca solo e outros instrumentos de samba na seção de solo de flautas (aguda em C, Celso Marques; grave em G, Mário Aphonso III) + percussão + bateria, sem harmonia, só a conversa melódica entre as flautas e o ritmo. No baixo, Robertinho Carvalho, piano, Moisés Alves e eu na bateria e percussão.  O contraste proposto entre as as partes A (em modo menor sobre o ostinato do baixo com bumbo só no 2º tempo) e B (modo maior em samba mais solto) somado às longas seções de introdução com cuíca solo dão a composição cores e climas diferentes.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Telecoteco - "Tipo uma Clave"

...Continuando o papo via facebook com meu amigo Geraldo, de Chicago.


  • Oi Sergio, agora vi sua resposta... vou pesquisar... maravilhosa sua explicação e, mais ou menos, o que eu pensava. Por já morar nos eua por mais de 30 anos, estou bem familiarizado com a música cubana, e sei muito distinguir as diferentes claves (3/2 e 2/3). Quer dizer que no Brasil poderíamos considerar o teleco teco como um tipo de clave e, a exemplo da música de Cuba, ele poderia começar tanto com anacruse quanto na cabeça do compasso (1º tempo), dependendo da melodia, certo?? Abraço.


    Oi, Geraldo, tudo bem?

  • Sim, eu acredito que podemos pensar no telecoteco como um "tipo de clave", uma linha guia definida pelo ritmo da melodia e que gera a tipologia de frases a serem tocadas. Começar na cabeça ou uma semicolcheia depois e a consequente inversão de frases é decisiva, como você bem sabe. 

    A música começar com anacruse ainda não define a frase, como nos exemplos que dei na postagem anterior, ambas a partir do impulso (Arsis) do ritmo, que chamamos anacruse, mas "Samba de Uma Nota Só" confirma a cabeça do tempo e "Piano na Mangueira" antecipa a entrada em uma semicolcheia, uma colocação tão clássica no samba (tocado com mais liberdade), como o '4e' do Jazz.
    É preciso ouvir e sentir como a melodia caminha. Para um músico com sua experiência, isto é super natural, e acredito que para sua aulas, esse conceito pode ser bastante útil.

    Uma última colocação é o que uma melodia que começa depois do 1º tempo, chamada de ritmo Acéfalo (nome horrível!), tende a configurar o telecoteco invertido, off the beat, "carioca", ou simplesmente telecoteco. Um bom exemplo é "Folhas Secas", de Nelson Cavaquinho, para o qual fiz arranjo para Big Band que você pode assistir abaixo.
    Big da Fundação das Artes de São Caetano em apresentação na Faculdade Santa Marcelina, em outubro de 2011. Repare que o pandeiro começa e em seguida o tamborim toca o telecoteco começando na 2ª semicolcheia,  após o 1º tempo, assim como a melodia. Tivemos Mário Chechetto como convidado no sax tenor.
    Grande abraço,
    Sergio

    domingo, 22 de janeiro de 2012

    Telecoteco por email - Para pensar e tocar


    Recebi esse email semana passada e achei interessante trazer ao blog a conversa sobre o tema.
      
    Oi sérgio, tudo bem? Feliz ano novo!
    Aqui escreve Geraldo de Oliveira, percussionista de Belo Horizonte radicado em chicago desde 1975.
    Gostei muito do seu livro "new ways of brazilian drumming".  Muito bom mesmo!
    Tenho uma pergunta pra você. 
    Já há vários anos venho ensinando percussão de 






    samba nos EUA e uma das frase rítmicas que mais me intrigam é o famoso teleco teco. Veja em anexo uma folha que criei para meus estudantes (trecho reproduzido abaixo). Nela explico com detalhes como funciona o teleco teco nas escolas de samba, com a famosa introdução especial seguida da frase rítmica.

    Observei no seu livro que você escreve o teleco teco da forma que a gente aprende e canta, com as duas colcheias no primeiro tempo do compasso, ao invés da síncope iniciada com a pausa de semicolcheia (no seu caso terceiro tempo do compasso).
    Você poderia me explicar a diferença?  Estou um pouco confuso com a notação musical correta, pois já encontrei das duas formas em várias publicações. O pessoal das escolas de samba juram que estão certos, inclusive meu amigo Mestre Odilon.
     Agradeceria muito qualquer ajuda que pudesse prestar nesse sentido.

    Obrigado,
    Geraldo.

    Oi Geraldo,
    Por aqui tudo bem e espero que com você também.
    Fico muito feliz que você tenha gostado do livro e que ele esteja sendo útil em seu trabalho.
    Li o que você me enviou e vi o que chamo de telecoteco invertido, caracterísco do samba carioca, das canções de compositores como Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Cartola e tantos outros.
    Não é possível e nem interessante generalizar que o "samba carioca é assim e o samba paulista é deste outro jeito", mas em diversas composições de Adoniran Barbosa, grande expoente do samba paulista, o telecoteco é tético, começa na cabeça do tempo, e isso é definido pelo ritmo da melodia e  reforçado pelo movimento do bloco harmônico. Ouvindo sambas de um mesmo compositor como Tom Jobim é possível perceber o movimento de uma ou outra frase como matriz, não necessariamente executadas na íntegra. "Samba de uma Nota Só" é um bom exemplo de uma frase que inicia e cadencia para a cabeça do tempo (on the beat) e "Piano na Mangueira", um samba "carioca" clássico (off the beat). 

    Em conversa com Oscar Bolão, ele me disse que quando você simplesmente tenta encaixar uma levada num samba que pede a outra, você tende a mudar naturalmente, ou soa literalmente 'atravessado'. Ele está certo, claro, mas segue a questão de qual das duas é o telecoteco?
    As duas, na minha maneira de ver. Ao lado o telecoteco e o telecoteco invertido e abaixo duas outras frases que estabelecem a mesma relação de "inversão". 
    Pode ser questionado? Sim, mas não acho muito produtivo. O fato é que há diferentes tipos de samba mais característicos dessa ou daquela área com seus diferentes estilos. 
      
    Um paralelo com as claves latinas pode ser ilustrativo. Qual a rumba clave original, 3-2 ou 2-3?
    *A son clave mais clássica é a 3-2, que tem a frase quaternária (normalmente escrita em dois compassos de 4) começando na cabeça do 1º tempo, típica do bolero e usada no samba canção desde os anos 50 na música brasileira. Em geral, a tética tende a ser referência para sua inversão.
    *Perguntei a Horácio Hernandez como saber qual das claves usar e ele pôs o dedo no ouvido, respondendo com o gesto que 'só ouvindo' para sentir e saber o que tocar.

    Só pra finalizar, conheço e uso o "Batuque Carioca" do mestre Odilon e tenho grande respeito por ele, que é uma autoridade no samba. Isso não está em discussão de maneira nenhuma.
    De qualquer forma, há áreas de imprecisão na 'academização da cultura popular'. Conhecê-las e seguir pesquisando é o mais legal, pois podem surgir novas ideias musicais, para tocar, compor e arranjar.

    Meu site (www.sergiogomes.com) abre com um solo sobre o 'telecoteco invertido' com a 'clave da bossa' nova no pé esquerdo... Nossa quanta terminologia, né não?
    Espero ter ajudado e um feliz 2012 para você também.

    Abraço,
    Sergio 

    sábado, 31 de dezembro de 2011

    Chuva no Amazonas - Frases de água



    Frases que se movimentam e se definem ao fazê-lo, como se perpassando afluentes desenhassem curvas influentes - ao se influenciarem incessantemente – construindo mapas de regiões quentes e exuberantes... Se duas, três ou cinco, as escolhas se escolhiam por acerto, beleza e prazer em prosseguir o que fora iniciado muitos (com)passos antes, quando já a consciência da unidade era absoluta, apesar das características particulares de cada nota, sua altura, duração e significado em cada momento.

    Chuva no Amazonas (player acima) é uma canção de compassos que se alteram com frequência muito menor do que mudamos de ideia e organizados como um discurso literário, que não tem tempo definido com critérios musicais, mas que tanto caminha, quanto respira, tal como falamos ou contamos uma história para alguém. Ela surgiu como alma musical do poema (abaixo) de mesmo nome que escrevi  e que é recitado ao fim do arranjo pela cantora Sandra Ximenez, a única e necessária presença feminina no CD Cidades Imaginárias.
    A primeira exposição é feita por Antônio Barker, super pianista convidado e amigo querido que tem o hábito de tocar trilhas sonoras de sonhos. No baixo, Robertinho Carvalho, grande músico, arranjador e o parceiro que todo baterista quer ter: seguro, musical, ouvido atentos e sempre feliz ao tocar com você. A flauta é precisa, inspirada e muito bem tocada pelo amigo, compositor e arranjador, Celso Marques.


    ...Chove no rio Amazonas...
    A canoa flutua n’água
    deslizando’índio e a
    preguiça das nuvens
    descansa nu’spelho
    doce das águas
    Envelhecid’a manhã
    move-se lentamente
    como uma baleia
    gigantesca...
    Enquanto o remo deixa
    seus rastros na bruma
    gotas de musgo
    escorrem pelo peito
    nu’esverdeado
    I’nda longe
    o porto de Manaus
    Além de peixe
    o som do amazonas
    como um mantra equatorial...


    Chuva e rio s’encontram
    e como nunca separados
    cada gota
    traz o amazonas inteiro
    de
    volta
    pra
    casa... 

    quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

    Música é meu ofício - Pessoas, minha paixão maior

    Trabalhar com arte é, de fato, algo muito especial e o artista, eventualmente, tem a impressão de fazer contato direto com a 'fonte de onde tudo vem'. Parece que as pessoas em suas diversas ocupações nem mais, nem menos importantes, podem se entediar mais facilmente e se desencantar de seus ofícios. Mas a música é um presente para todos e, por vezes, são os músicos que se cansam de trabalhar em situações que não lhes agradam, porque há contas a serem pagas, filhos a serem cuidados, novos instrumentos comprados, manutenção a ser feita...

    Trem NY- Matawan, dez.
    Música - com toda sua magia - é meu ofício e através dele procuro desenvolver meu espírito que vai seguir viagem quando este corpo se cansar, como tudo que é físico e tão sólido quanto um pensamento.
    Antes dos meus sonhos musicais e dos meus planos profissionais, estão as pessoas que amo e que me são muito caras. Aqui uma coleção de fotos de algumas delas, de momentos de trabalho e de viagens que fiz neste ano de 2011. Há pessoas queridas que não estão nas fotos como  Carlos Ezequiel, Christiano Rocha, Paulo e Paola Tiné, Sandra Ribeiro, Vera Cury, Bob Wyatt, Ricardo H., Suzana Fleury, Sidney Molina, Luis Otavio, Claudio Tegg, Carlinhos Antunes, Renato Consorte, Jeff Kunkel, David Damsey, David Richards, a turma do Sergio Rossoni Grupo, do grupo Terra Brasil e outras mais que eu gostaria de colocar nesse mural... Bem, eu coloco no próximo.

    Big Band da Fundação, Teatro da Vila, junho

    Meu irmão tentando me convencer de algo... sempre!
    1ª geração de sobrinhos, Daniel e Renata


    Lauro Lellis, eu, Maurício Leite e Leandro Lui

    Caribe ao fundo, montando set para show, abril


    Sobrinhas, janeiro, São Sebastião
    Felix, meu irmão alemão. 

    Vive em NY... Dá pra imaginar as saudades?
    Família, agosto, SP
    Parece comigo e mesmo assim é linda... Inexplicável!!! NY, Dezembro
                                                                                                                                                                               Grande abraço, um ano novo muito bom para você e todos ama, Sergio
                         

    sexta-feira, 25 de novembro de 2011

    Frevo Pé Trocado - 7/8 (4+3)



    Foto da gravação do CD
    O frevo é um gênero musical           natural de Pernambuco e nasceu do desafio musical entre bandas marciais no princípio do século XX. Com o tempo surgiu um estilo de dança que faz parecer que abaixo dos pés das pessoas exista uma superfície com água fervendo. A palavra frevo vem de ferver ("frever") sob os pés ou a impressão que dá o desfile visto de longe, no calor do nordeste brasileiro.

    Este estilo pernambucano de carnaval é um tipo de marchinha bastante acelerada em geral sem letra - ao contrário de outras músicas carnavalescas - sendo tocados por uma banda de sopros, metais e saxofones em geral, e uma formação de percussão com caixa ao centro, bumbo (surdo em português do Brasil) e prato a dois, como nas bandas militares, nas fanfarras e nas marching bands americanas. A instrumentação é a base de uma bateria, caixa, bumbo e chimbal (snare, bass drum and Hi-hat) e o desafio para o instrumentista é técnico, sob o ponto de vista da velocidade... 

    "Frevo Pé Trocado" (player acima) é uma composição que fiz e que está em meu CD "Cidades Imaginárias". O frevo é um gênero binário, escrito e dançado em 2/4 e essa composição é em 7/8, o que deu origem ao nome 'pé trocado', imaginando a dança sobre o tempo num compasso e no seguinte no contratempo. Experimente ouvir o ritmo em 7/8 e em 7/4 quando o 'pé trocado' fica evidente e divertido. Há um conceito composicional baseado no contraste entre o caráter ‘tonal’ de uma melodia mais tradicional de frevo e a seção modal de solo tenor ‘free’ do super Vitor Alcântara.

    Na gravação temos Robertinho Carvalho, baixo, Moisés Alves, piano, Celso Marques, flauta e o convidado especial, Mario Afonso III, na flauta pícollo.
    Dediquei essa música ao meu grande amigo, super baterista, Maurício Leite.
    Essa faixa pode ser encontrada no Itunes ou similar. 

    segunda-feira, 7 de novembro de 2011

    Berimbau jazz - Marcelo "Preto" Gomes



    Marcelo Gomes é guitarrista, compositor, professor e grande parte de suas composições estão nos cinco CDs do grupo de jazz brasileiro Terra Brasil, sobre o qual tenho comentado e mostrado algumas faixas para você que acompanha este blog. Samba, baião maracatu e ijexá são ritmos presentes em suas músicas, além de um veio mais latino: sul-americano e caribenho. http://www.myspace.com/marcelogomesguitar

    O berimbau sempre exerceu um fascínio especial sobre meu irmão, Marcelo. Sua composição intitulada "Chino" - disponível no player acima - do CD "Questão de Tempo" é baseada num ciclo modal, onde o baixo toca ostinatos inspirados em toques de berimbau e na gravação eu toquei dois berimbaus afinados: o gunga, berimbau grave de base em (B, si) e o viola, berimbau agudo que gravei em overdub em (E, mi). Ambas as notas são afins com o ciclo harmônico da música e cumprem uma função "pedal" sobre a qual toda a composição acontece... Ele diz que é uma capoeira chinesa, mas até hoje (don’t tell him!), honestamente, não sei bem por que. A música é muito bonita e propõe um conceito que associa a tradição afro-brasileira com o jazz brasileiro contemporâneo.

    Além dos dois berimbaus, usei diversos efeitos como o gongo submerso criado por John Cage, compositor que conheci quando estive envolvido com percussão do século XX, durante meu bacharelado em percussão erudita, na UNESP. Há também seções com de pratos 'crashs' de tamanhos diversos tocados com baquetas macias. Os solos são todos de cordas, guitarra, violão e berimbau sobre o tema final (head out), que tem função híbrida de re-exposição e background para o solo do berimbau viola que é uma idéia muito criativa do arranjo.

    Os Irmãos Gomes em Vitória, ES, 70s
    Marcelo tem um CD solo - lançado pela CPC Umes - "Preto", um trabalho super inspirado, muito bem tocado e que pode ser encontrado em boas lojas por todo Brasil. Ele sempre foi uma fonte de aprendizado musical para mim e é um artista que busca incessantemente os conceitos por trás das estruturas, instigado pelo folclore, pelo jazz e pela música brasileira. É uma sorte e um grande prazer que ele seja meu melhor amigo.

    sábado, 22 de outubro de 2011

    IASJ - Workshop Informal

    O 21º IASJ - International Association of Shools of Jazz Meeting - que tem Dave Liebman como diretor artístico, foi realizado aqui, em São Paulo, onde vivo. Pela 1ª vez o evento foi realizado na América do Sul e trouxe professores da Berklee e estudantes de diversos países. As atividades foram realizadas no Conservatório Souza Lima e o baterista, professor no encontro e meu grande amigo, Carlos Ezequiel me ligou convidando para ir ao encontro final da área de bateria.
    Fui até lá e foi ótimo encontrar amigos queridos como Bob Wyatt e Lupa Santiago e conhecer músicos como John Ramsay, chefe do departamento de percussão da Berklee, e autor dos vídeos abaixo.  Meu livro estava circulando pelo encontro, uma vez que o conservatório, entre muitas outras escolas no Brasil, universidades americanas e européias (pela Ed. Advance Music), o adotou para o ensino de ritmos brasileiros. Em certo ponto do encontro fui apresentado ao presentes pelo próprio Ramsay e gentilmente convidado a falar sobre meu trabalho.

    Compartilho com você um pouco deste encontro descontraído e agradável, onde ouvi diversas considerações interessantes sobre o equilíbrio entre o desenvolvimento técnico e musical na formação de um músico.

    No 1º vídeo abaixo, demonstrei a técnica conhecida como "frigideira", clássica maneira brasileira de tocar samba e ritmos brasileiros em geral, usando o movimento de rotação do braço, sem uso dos dedos, nem pulso (no sentido up and down) e iniciando para direita e retornando para esquerda.

    No 2º vídeo falamos, eu e Carlos, sobre maracatu e demonstrei os baques de arrasto e de marcação, variações de caixa, bumbos e o gonguê - sua conexão com a linha do tarol - que também toco com o pé esquerdo.




    segunda-feira, 10 de outubro de 2011

    Maracatu Jazz: Onde estão os temas? Where are the melodies?



    O maracatu segue sendo uma manifestação muito mais folclórica do que um gênero popular e as canções, em geral, são simples, com dois versos cantados em forma AABB, a 1ª vez cantada pelo mestre e a 2ª respondida pelo coro, ou ainda com trechos quase 'recitados'. Por essa razão há poucos temas conhecidos no repertório popular brasileiro.

    “Maracatu”, de Egberto Gismonti é uma das maiores referências de um tema em ritmo de maracatu. Zé Eduardo Nazário é o baterista da gravação no álbum "Nó Caipira", 1978, e Nenê quem gravou "Sanfona", 1981, reunido em "Sanfona, Egberto Gismonti e Dança das Cabeças", 1986, pela ECM. Cada um toca de maneira muito particular e ambas gravações tornaram-se referências de maracatu na bateria. Sou um profundo admirador destes grandes bateristas e amigos e sugiro que você procure e ouça essas gravações inesquecíveis.

    No player acima você pode ouvir o tema “Questão de Tempo” de CD do mesmo nome do grupo Terra Brasil. Ao lado, Marcelo, Antônio,  Zeli, autor do tema, Vitor e eu. Ricardo Garcia também faz percussão nessa faixa.

    Na bateria, você vai ouvir uma das maneiras que toco maracatu na bateria e também conhecer a 1ª gravação onde usei cowbell no pé esquerdo tocando a linha do gonguê, uma tipo de cowbell do maracatu. Além da bateria, fiz overdub de mais uma caixa e um tarol (caixa mais aguda) tocando algumas de suas frases clássicas da tradição do maracatu, de certo ponto da improvisação até o retorno do tema A.

    Harmonia modal, improvisações, texturas, timbres modernos e as melodias das partes A e B não tem nenhum compromisso com o aspecto melódico do maracatu tradicional. Maracatu jazz é a melhor definição que tenho para este tema, que me lembra o espírito dos ritmos brasileiros numa cidade como NY.

    sábado, 1 de outubro de 2011

    Feiras são grandes encontros – Brasil Expomusic 2011



    Feira é um evento milenar na história do homem. De alimentos, artesanato, carros, música... Barulho, stands (ou barracas), comércio, apresentação de novos produtos, “trocas”, vendas, compras e novas relações comerciais se estabelecem assim como acontecem encontros com amigos e colegas de trabalho.

    A Expomusic brasileira 2011 foi bem movimentada e com todas as características de uma feira acrescida de performances musicais que, em geral, tendem mais a exibições técnicas do que musicais, mas ainda assim divertidas. Eu mesmo toquei no stand da RMV - minha marca de bateria e peles - os play-alongs de meu livro, que estão espalhados pelo YouTube sendo tocados por muitos bateristas, e também toquei solos livres baseados em temas, grooves, ou em alguma “idéia musical”.

    Foi muito bom e gratificante receber o carinho de muitos estudantes, professores e músicos em geral que conhecem e utilizam meu livro, ou conhecem meus CDs e gravações. Fiquei muito feliz ao ver quanta gente tem se beneficiado com meu trabalho didático e outros que acompanham minha carreira musical.

    No player acima você pode ouvir Bluesamba, uma composição minha gravada no 5º CD do grupo Terra Brasil, “Questão de Tempo”, em uma interpretação bem aberta, estilo samba jazz dos anos 60. Nessa gravação fiz solo sobre todo o chorus da música (ciclo de 32 compassos; experimente manter a melodia da música viva cantando-a durante meu solo, pois foi isso que fiz, explorando seus  ritmos, os espaços entre eles e frases de samba que surgiam enquanto eu improvisava), e tem Vitor Alcântara, sax, Antônio Barker, piano, Marcelo Gomes, guitarra e Zeli, baixo acústico.
    Essa música também é um dos play-alongs do “Novos Caminhos da Bateria Brasileira” que toquei na feira.  

    segunda-feira, 19 de setembro de 2011

    Insensatez/How Insensitive in 7/8


    Insensatez é uma bossa nova lenta, uma bossa-balada feita por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que escreveu uma das letras mais bonitas e profundas dessa parceria.
    Originalmente em Bm (Si menor), a composição tem a magia musical e poética de tratar da tristeza e do pesar, sem entristecer, mas emocionar. No CD “Antonio Brasileiro”, o cantor Sting faz uma parceria com um dos maiores compositores da música popular brasileira de todos o tempos, Tom Jobim.

    Originalmente escrita em compasso binário, fiz um arranjo em 7/8, numa combinação 2/4 + 3/8 que surgiu naturalmente em uma época em que eu estudava frequentemente compassos alterados. A nota longa no fim de cada frase musical possibilitava esse trânsito de um forma que me pareceu orgânico. A manutenção da atmosfera “bossa nova”, suave, fluida e sem ‘esforçar’ o 1º tempo a cada 7 bits é também parte essencial do conceito do arranjo. Usei vassourinhas e o Hi-hat em 7/4 a maior parte do tempo. Ouça o player acima.

    Essa gravação foi feita em 1995 no CD “Tudo Bem”, do grupo Terra Brasil que esteve sempre muito presente em minha vida musical. Fizemos 5 CDs de jazz brasileiro em 15 anos de carreira e, em outras oportunidades vou mostrar mais músicas desse grupo que segue vivo em suas gravações. Tivemos nessa gravação a felicidade de ter como convidado Nailor “Proveta” ao clarinete e o que vocês estão ouvindo é o 1º take (1ª gravação) que fizemos assim que ele ouviu qual era a idéia do arranjo.

    A interpretação transcorre como um standard de jazz numa noite informal com introdução, tema, dois chorus (ciclos da própria música) de improviso de clarinete, e trades (alternância de solos entre a bateria e outros instrumentos) de quatro compassos entre a bateria e a guitarra. Observem que os solos de baterias sob ponto de vista musical acontecem em 4 compassos de 7/8 ou em 2 de 7/4, o que matematicamente dura o mesmo tempo.

    Espero que Tom Jobim não tenha ficado bravo e que vocês gostem. Esse CD não está mais no mercado e quem tiver interesse em conhecê-lo melhor entre em contato que posso enviar outras faixas em MP3.
    Abaixo a partitura com melodia, cifras e uma guia para linha de baixo. A tonalidade foi mudada para Dm (Ré menor).